Sábado, 04 de Setembro de 2010      
   Ano 2 - Número 10 - Mês Outubro / Novembro      
   Área Restrita
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Aconteceu

  VOCÊ JÁ OUVIU FALAR DE KATYN?



Aguinaldo Záckia Albert
zackia.albert@uol.com.br


 Muito provavelmente não. E eu, como o leitor, confesso que só vim a conhecer o assunto há poucos meses quando assisti ao filme KATYN, do festejado diretor polonês Andrzej Wajda. Sempre que vou ao cinema (e vou muito ao cinema) procuro ler alguma indicação sobre o filme que vou assistir, ler alguma crítica ou indicação de amigo. Não tenho mais idade para desperdiçar meu tempo com tolices ou produções meia-bomba. Dessa vez não havia lido nada a respeito do filme, mas me bastou saber que o filme era desse genial diretor de cinema e teatro polonês de nome quase impronunciável. Já havia visto Cinzas e Diamante e Danton, ambos de sua autoria, e gostado muito. Assim, logo que sai da livraria Cultura do Conjunto Nacional, parei diante do Cine Bom Bril, dei uma olhada nos cartazes, vi que a sessão estava por começar e acabei entrando. E confesso que não me arrependi.

 Sempre tive fascinação por filmes de guerra, principalmente aqueles que abordam passagens da Segunda Grande Guerra, além de ler muito sobre o assunto. No entanto, o traumático episódio de Katyn era para mim um tema desconhecido, apesar de sua grande dimensão histórica. O holocausto judaico, as batalhas da frente oriental e ocidental, o heroísmo dos soldados aliados em Dunquerque, o Dia D, a própria invasão da Polônia e as atrocidades cometidas pelos nazistas no Gueto de Varsóvia, tudo isso eu já conhecia, mas nada sabia sobre Katyn, onde foram assassinados pelas tropas soviéticas mais de 20 mil oficiais do exército polonês além de muitos integrantes da intelligentsia desse país.

 Situada entre dois gigantes belicosos, a Alemanha e a Rússia, a Polônia tem uma história trágica, marcada por guerras e invasões, devido à sua delicada posição geográfica. A Segunda Grande Guerra eclodiu justamente com a invasão do país pelo exército alemão, em 1º de setembro de 1939, o que melindrou, com todos os motivos, os países do Ocidente europeu, que já prenunciavam outras invasões. Antes disso, em agosto do mesmo ano, russos e alemães, até então ferozes inimigos, assinaram o Tratado Molotov-Ribbentrop, um acordo de não agressão entre as duas potências que dava tranquilidade aos alemães na frente leste enquanto concentravam seu esforço militar no oeste da Europa. Não haveria interferência soviética na parte ocidental da Polônia, enquanto os russos invadiriam a Finlândia, as terras polonesas próximas à sua fronteira (onde se situa Katyn) e outros países do Báltico.

 Na verdade, as tropas soviéticas invadiram a Polônia com o pretexto de protegê-la dos alemães. No filme pode-se ver o ar esperançoso da população pensando que seria protegida e a perplexidade do exército polaco, temendo pelo pior diante do fato, enquanto observavam a chegada das tropas soviéticas carregando a bandeira polonesa ao lado da russa. Apesar da tradicional rivalidade, os poloneses acreditavam ter, naquele momento, a União Soviética como uma aliada, mas os fatos iriam demonstrar o contrário, já que o que se pretendia era o desaparecimento da Polônia como país, que seria absorvida pelas duas potências vizinhas.

 Wajda  nos mostra com maestria essa tragédia pouco conhecida da invasão do leste da Polônia. A destituição dos professores e das autoridades do país, sua substituição por pessoas do Partido Comunista Polonês, meros títeres de Moscou, e o confisco de bens e propriedades. Queria-se mais. Queria-se a eliminação da elite cultural polonesa para que o país não se reerguesse, e a decisão foi tomada de forma radical. Apresentada por Beria, ela foi assinada por Stalin, Voroshilov, Molotov e Mikoyan, como se pôde averiguar no documento que veio à luz recentemente. Os oficiais e soldados foram todos presos. Estes últimos – cerca de 240 mil – foram incorporados ao exército soviético, já que não tinham liderança e não ofereciam perigo e podiam ser úteis; os primeiros, com a exceção de alguns poucos que abdicaram de suas convicções e mostraram estar de acordo com a nova ideologia, foram assassinados um a um com um tiro na nuca.

 Vim a saber mais tarde que o pai de Wajda, que era capitão de infantaria, foi um dos assassinados, o que dá mais força ao filme. Corria ainda o ano de 1939. Do campo de concentração de Ostachkovski, onde estavam, os polacos eram levados em grupos de 400 para a floresta de Katyn. Lhes era dito que iriam para outra região da Polônia e que teriam melhores condições de vida para não oferecerem resistência. Então, um a um, eram encaminhados a uma sala e mortos com um tiro na nuca, friamente, com pistolas alemãs para despistarem o crime. Dizem também que as pistolas eram alemãs por serem mais resistentes e de melhor qualidade. As russas não aguentariam o ritmo dos assassinatos. Um pequeno caderno foi encontrado mais tarde no bolso de um tenente polaco que anotou todo o processo e o sofrimento de seus camaradas. Wajda o apresenta como um dos personagens do filme.

 Mas o mundo dá voltas, e o mundo da política dá mais voltas ainda. Em 1941, já mais seguro na frente ocidental, Hitler rompe o tratado de não agressão e, para surpresa de Stalin, invade a Rússia. Na verdade um mau passo que lhe custaria a vitória na guerra, tal o montante das perdas que teve. Mas isso é um assunto que renderia outras tantas páginas. O que nos interessa é que, durante sua rota, retomou a região de Katyn e o local das valas onde estavam enterrados os poloneses foi descoberto, e assim também o crime do exército vermelho. Apesar de já terem cometido crimes piores, os nazistas deram grande publicidade ao fato e mostraram o massacre ao mundo, convidando as instituições dos países aliados a comprovarem o fato.

 Aqui já saio um pouco do filme e pego um link para o excelente livro do jornalista inglês Laurence Rees, Behind Closed Doors, que ganhou entre nós o título de Stálin, os Nazistas e o Ocidente (Editora Larousse). Trata-se de um belo catatau de quase 600 páginas, fruto de minuciosa pesquisa e muito boa análise, que, uma vez que se começa, não se consegue parar de ler. Os fatos dos bastidores do conflito estão todos ali. Os interesses das nações, as manobras para atingi-los, os acordos e discussões etc. Os grandes personagens são Churchill, Roosevelt e Stalin, inclusive a reunião deles em Yalta. Apesar de serem três personagens grandiosas, a que chama mais a atenção de todos é, surpreendentemente, Stalin, que causou grande impressão aos outros dois. O livro disseca a personagem desse velho lobo georgiano, corajoso, muito inteligente e sagaz, mas incrivelmente frio, vingativo e sanguinário.

 Comprei o livro um pouco depois de ver o filme, tal foi meu interesse, e nele encontrei um longo capítulo sobre Katyn. Ali se pode ler que a descoberta do fato causou péssima impressão no Ocidente e em seus líderes, embora os soviéticos negassem a autoria do massacre e o creditassem de forma cínica aos nazistas, seguindo a máxima que diz que, na  guerra, a primeira vítima a tombar é sempre a verdade. No final, por uma questão de pragmatismo político, tiveram de tampar o nariz e “engolir” a versão mentirosa dos importantes aliados soviéticos.

 Felizmente para nós, ficam o filme de Andrzj Wajda e o livro de Laurence Rees, depoimentos pungentes dessa face pouco conhecida do conflito.





 



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