Redação
Rafael Cervone é um jovem executivo de 42 anos reconhecido pela grande capacidade administrativa, que além de gerenciar seu próprio negócio no nicho de tecidos industriais já comanda uma das mais poderosas entidades de classe do Brasil, o Sinditêxtil, estando em seu segundo mandato. Rafael também atua como primeiro vice- presidente do CIESP a convite de Paulo Skaf. Uma das novas forças do empresariado nacional.

1) Conte-nos um pouco sobre sua trajetória profissional.
Sou engenheiro têxtil formado pela FEI, e minha trajetória profissional teve início na Santista de Osasco como estagiário, onde passei por todas as funções, desde prensista de resíduos até supervisão de fábrica. Posteriormente fui transferido para a Santista de Americana. Como venho de família têxtil, esta experiência serviu de base para trabalhar logo após na CERMATEX, especializada em tecidos técnicos e fundada por meu pai e meus tios.
2) Qual foi seu grande desafio profissional e como se saiu nele ?
Certamente foi a transição de nossa empresa familiar, que ocorreu sete anos atrás, éramos 11 sucessores diretos, estes assuntos sempre geram muito desgaste, especialmente em se tratando de familiares. O modelo e as decisões que tomamos foram muito adequados. Sentimos isto até mesmo na relação familiar do dia a dia que ficou ainda mais próxima após as decisões tomadas.
3) Como iniciou seu envolvimento com as associações e entidades representativas do setor têxtil ?
As coisas foram acontecendo naturalmente, primeiramente um amigo me convidou para ajudá-lo na direção da CIESP de Santa Barbara d´Oeste. Ao mesmo tempo, meu envolvimento com o Sinditêxtil também aumentou, pois costumava frequentar as reuniões de todas as quintas-feiras com meu pai, Francisco Cervone, que era diretor da entidade, e meu interesse e participação foi crescendo até o dia em que o Paulo Skaf se candidatou à presidência e me convidou para ser vice-presidente de sua chapa e fomos eleitos. Quando ele se candidatou a presidente da FIESP, acabei sendo indicado por ele e assumindo a presidência, fui reeleito e meu segundo mandato termina agora em 2010.
4) E o CIESP, como surgiu em sua vida? O senhor já sonha com a presidência como um próximo passo ?
Sou 1º Vice-Presidente do CIESP a convite do Paulo Skaf, a proximidade e o trabalho conjunto no Sinditêxtil criou uma relação muito íntima de respeito profissional, fiquei honrado e exerço com muito afinco meu cargo. Quanto à presidência, a resposta é não, ainda tenho muitos planos e projetos inacabados que requerem tempo e dedicação.
5) A concorrência chinesa seria hoje seu maior desafio como presidente do Sinditêxtil ?
A China é um dos maiores, mas não é o único. O setor têxtil tem hoje por ordem: a) o câmbio baixo que favorece os concorrentes externos; b) a falta de isonomia competitiva com outros países exportadores; c) o sub faturamento nas importações; d) o descaminho (ou contrabando).
6) O senhor podia nos dar alguns números ?
Claro, vamos a alguns exemplos: O subfaturamento faz chegar ao Brasil, ternos prontos a 27 centavos de dólar por quilo. Biquínis a 2 centavos de dólar por quilo. Lingerie a 1 centavo de dólar por quilo, é preciso falar mais ? Quando confrontamos os volumes de entrada de importações feitas da China com os volumes que entram oficialmente no Brasil, temos uma diferença de 50 por cento a menos, ou seja, este é o tamanho do descaminho!
7) Como a crise internacional atingiu o setor têxtil ? Já existe uma luz no fim do túnel ?
A crise afetou mais os setores que dependem de crédito e das exportações, a princípio nosso segmento foi menos impactado por termos um enorme mercado interno que absorve grande parte da produção. Os principais afetados foram os chineses, visto os mercados europeu e dos EUA que consomem mais do que produzem terem diminuído drasticamente suas compras. Por falar nisto, os chineses já olham nosso mercado como uma saída, o que pode ser muito complicado para o setor têxtil nacional.
8) E como combater isso ?
Estamos trabalhando junto ao governo um plano estratégico para os próximos 15 anos que tem como base a inovação. As grandes potências hoje não mais confeccionam roupas, isso fica por conta de países de baixo custo como a China, por exemplo, entretanto o modelo deles é na linha de commodities, ou seja, mega escala na qual hora parada por mudança de modelos pode ser mortal para os custos. O mercado de outro lado busca inovação e mudanças rápidas de modelagem, e o Brasil pode ser a bola da vez, pois temos uma indústria integrada, inclusive com a área de confecção, mas temos uma grande estrutura de micro e pequenas empresas que somada à criatividade de nossos profissionais poderá atender a esta rápida mudança que o mercado requer.
9) O Brasil é conhecido mundialmente por suas belas modelos e talentosos estilistas. Como isso impacta no comércio com os outros países ?
Realmente isto tem ajudado muito. O Brasil não é visto apenas como um produtor de roupas de qualidade e criativas ou até mesmo preocupadas com o meio ambiente. Hoje somos reconhecidos internacionalmente pelo estilo de vida, um bom exemplo é o efeito Havaianas. Nossas roupas estão indo para o mesmo caminho. Temos diferenciais que já estão sendo notados: algodão orgânico, algodão colorido naturalmente na planta, pigmentos naturais, enfim, somos líderes de uma produção mais limpa.
10) Por que os produtores brasileiros usam tão pouco os talentosos artistas brasileiros em suas estampas ?
Isto já faz parte de nosso programa estratégico Texbrasil , criado em conjunto com a APEX (Agência Brasileira de Promoção das Exportações e Investimentos) que, na área de moda, integra diversos segmentos, como cadeia têxtil/vestuário, joias, sapatos, cosméticos, já tem o envolvimento de design, música, arquitetura e arte.

11) O que faz a sua empresa a Technotex ?
Somos especializados em tecidos técnicos que se prestam a uniformes especiais , anti-chama, com os quais são feitas roupas para bombeiros, macacões de pilotos de caça, roupas para área militar, além de tecidos para as diversas áreas industriais.
12) Com tantas atividades paralelas ainda sobra tempo para o lazer ?
Tenho meus dias bastante ocupados, mas não descuido do lazer, sou apaixonado por mergulho. Gosto de explorar e de fotografar o fundo do mar. Já tive a oportunidade de conhecer lugares maravilhosos como o mergulho do tubarão branco no Cabo da Boa Esperança, as Ilhas Maurício com seus peixes exóticos e corais, Cozumel etc. Gosto muito de mergulhar em Ilha bela e tenho como meta para 2010 a Ilha de Fernando de Noronha.
13) Seria este seu hobbie ?
Sim, mas também gosto muito de ler. Comecei aos 11 anos de idade por influência positiva de minha mãe e leio de tudo, uns 20 livros por ano.
14) Gosta de cinema, arte, teatro, música, especificamente do quê especificamente ?
Pois é, adoro música também, e sou bastante versátil. Aprecio música clássica, óperas, por exemplo, a Carmen de Bizet, Cavalleria Rusticana, ; jazz, especialmente Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald. No cinema acontece algo interessante, não assisto filmes em casa, gosto mesmo de ir ao cinema, você se envolve mais e nunca é interrompido.
15) Fiquei sabendo que o senhor entende muito de vinho, Velho Mundo, Novo Mundo ou ambos ? Algum favorito ?
Não sou especialista, mas admito que gosto muito de degustar bons vinhos, fiz até um curso básico na ABS de Campinas. Não tenho preferência por vinhos do Velho ou do Novo Mundo apenas sigo meu paladar. Bons vinhos que aprecio muito são os supertoscanos como o Tignanello e o San Giorgio; quanto a uma marca para ser tomada no dia a dia fico com os Catena Zapata.
16) Que acha dos vinhos brasileiros? Recomendaria algum ?
Sei que eles também têem sérios problemas com a carga tributária, e que têm melhorado muito a qualidade nos últimos anos. Dentre os vinhos que tomei e gostei muito estão o Talento da Salton e especialmente alguns de uma vinícola boutique chamada Lídio Carraro, que tem vinhos excelentes.
17) É freqüentador de restaurantes? Quais são seus favoritos ?
Restaurante é uma das coisas que considero um bom investimento, adoro boa comida. Em Campinas vou muito ao Le Trouquet e ao Bellini, em São Paulo cito o Fasano, o Nonno Ruggero e o Dolce Villa.
18) Qual é seu prato favorito no dia a dia ? E qual seria um prato inesquecível ?
Bem, no dia a dia fico com um spaghetti al sugo com manjericão que minha cozinheira Andreia prepara como ninguém. Mas o prato inesquecível vai para o Tournedos à Rossini que meu pai faz, coisa de profissional.
19) Uma dica a nossos leitores.
Não deixar o trabalho impactar o seu tempo livre. Os momentos perdidos de lazer, especialmente de convívio com a família, com os amigos ou fazendo coisas que você gosta, não têm volta e nada justifica perdê-los. Viva a vida intensamente.