Redação

Ives Gandra da Silva Martins, renomado jurista brasileiro com reconhecimento internacional, professor emérito das universidades Mackenzie e Paulista, autor de mais de 40 livros, publicados e traduzidos em 10 países, tem dentro de si a inquietude e sabedoria que o fazem percorrer caminhos que vão do Direito à Filosofia, da Filosofia à História, da História à Poesia...
1) O Sr. vem de uma família extremamente talentosa : um dos seus irmãos é o famoso pianista e Maestro João Carlos Martins, o outro, José Eduardo Martins , é talentoso e reconhecido pianista também, e por fim José Paulo, dedicou-se a continuar a carreira de seu pai produzindo aromas e fragrâncias. Fale-nos um pouco sobre como foi sua criação e educação, e como o Sr acabou escolhendo a Advocacia como carreira.
- Em primeiro lugar, vale a pena esclarecer que o adjetivo utilizado para nossa família é mais generosidade do amigo do que verdade. Somos sim de uma família lutadora e esforçada na busca de nossos objetivos. João Carlos e José Eduardo fizeram brilhante carreira, o que se deveu á disciplina que nossos pais nos impuseram desde cedo, no estudo e na valorização daquilo pelo qual lutar valia realmente a pena. José Paulo é um bom pintor e um bom poeta, mas foi o único seguidor da carreira do papai. Pessoalmente, eu deveria suceder meu pai e para tanto, ao terminar o colegial, fui estudar perfumaria na França, curso que me agradou sobremaneira, mas ao voltar ao Brasil e entrar da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco (USP), percebi que estava mais atraído pelas leis do que pelos perfumes. Felizmente, meu irmão José Paulo, que sempre gostou da perfumaria e mantém uma firma de óleos essenciais até hoje, continuou o negócio de nosso pai, que, portanto, não se sentiu frustrado. Queria ter dois filhos pianistas e teve. Um sucessor e teve. E, apesar de não ter seguido seu ramo de negócios, sempre declarou que eu fizera uma boa escolha. A educação, todavia, que tivemos deveu-se a exigência paterna e ao carinho materno, algo que percebemos, com nitidez, já adultos, tendo o privilégio de conviver com os pais por muito tempo. Mamãe faleceu com 92 anos e Papai com 102.
2) O Sr também é pianista. Em nenhum momento pensou em seguir a carreira musical?
- Estudei piano, cheguei a compor algumas músicas, participei da Associação Brasileira de Jovens Compositores, presidida por Ives Rudner Schmidt e presidi a Associação dos Jovens Artistas, com mais de duzentos associados, em 1952. Confesso que nunca pretendi seguir a carreira musical, pois os irmãos eram muito superiores a mim e a literatura atraia-me mais que a música, assim como o Direito.
3) Seu pai entrou para o Livro Guinness como o escritor que iniciou mais tarde sua carreira lançando, em 1981, aos 84 anos de idade, o livro Sabedoria e Felicidade. De todos os exemplos e lições que o Sr recebeu dele, qual considera o mais importante?
- A lição mais importante foi o amor que sempre demonstrou à mamãe, dando-nos um exemplo extraordinário do que é uma família. A disciplina e a exigência, inclusive com leituras diárias e obrigatórias sobre moral que tínhamos que fazer, além dos resumos, os quais lia antes do jantar, foram componentes que terminaram por nos ajudar. Papai sempre nos dizia que o verdadeiro homem não desiste nunca, mesmo quando tudo leva a acreditar o contrário. Eu brinco que nosso pai "Programou-nos para não desistir".
4) Sabemos que o Sr considera a família a principal célula da sociedade. Quais os maiores desafios a serem enfrentados na formação das famílias atualmente, e qual seria a “fórmula” para que se evitassem tantos divórcios e mudanças de parceiros?
- A família é a grande riqueza de uma vida. Marido e mulher devem se amar, mas este amor só pode ser verdadeiro se cada um pretender, no casamento, fazer a felicidade do outro e não a própria. Quem vai para o casamento pretendendo a própria felicidade sempre fracassa, pois sua visão é egoista e sem doação. Quando se pensar em primeiro lugar na felicidade do outro, o casamento sempre vai bem, principalmente se os dois pensarem da mesma forma. O grande problema dos fracassos matrimoniais, hoje, reside em que cada um quer ser feliz à custa do outro e sente-se sempre incompreendido. Acresce-se que as tentações da mídia, dos costumes flexibilizados, da falta de ética e de Deus na vida dos casais, além das ambições consumistas de subir sempre na carreira, terminam por abalar a mais importante célula da sociedade. Assim amar o outro mais do que a si mesmo e perceber que "tem mais quem precisa de menos" são duas boas formas de preservação do matrimônio.

5) Qual a avaliação econômica que o Sr faz de nosso país atualmente e quais os grandes males que impedem um maior crescimento?
- O Brasil sobreviveu à crise econômica mundial por três razões. Em primeiro lugar, porque custou a crescer mais do que as demais economias. O peso de uma máquina esclerosada fez com que o Brasil crescesse menos que todos os países emergentes de expressão (China, Índia e até a Rússia), de tal maneira que quando estávamos para entrar na ciranda financeira mundial, a crise não nos atingiu. Fomos salvos menos pela competência do governo, que inchou demasiadamente a máquina para acomodar amigos e sindicalistas e mais por força deste atraso. Em segundo lugar, porque aquilo que funcionou no Governo Lula foi rigorosa cópia do Governo Fernando Henrique. O ter seguido a política de FHC, no campo econômico, salvou Lula, apesar do inchaço da máquina. E Lula só cresceu mais que FHC porque todos os países cresceram mais no período de 2003 a 2008 do que no período de 1999 a 2002. Vale dizer, quando Lula diz que seu governo ostenta números melhores que FHC, todos os países também ostentaram números melhores no passado por força do "boom" econômico do período. Só que os números do Brasil foram piores, não por força da política econômica, cuja cópia seguira o modelo FHC, mas por aquilo que o próprio Lula criou, ou seja, o esclerosamento de uma máquina ineficiente, cara, que não consegue sequer aplicar o dinheiro do PAC. Tanto é verdade que o PAC 2 é uma reedição do PAC 1, que não foi implantado por incompetência. E o terceiro aspecto é que toda a banca brasileira com grande parte de seus ativos em títulos do governo não sofreu a deterioração da banca mundial com papéis sem qualquer lastro e na sua grande maioria privados. O que atrapalha este governo e o condiciona em parte é o excesso de burocracia, excesso de amigos do rei e sindicalistas, que afastam a verdadeira burocracia que é a profissionalizada para conquistar poder, força e prestígio sem terem competência. Desta forma, o peso do Estado é ainda o pior obstáculo para o crescimento, apesar da excepcional qualidade de setores empreendedores do país, que sobrevivem, apesar dos governos .
6) Que vantagens e desvantagens a globalização da economia trouxe ao nosso país?
- Collor, com todos os seus problemas, teve um mérito indiscutível. Abriu o Brasil para a economia. Itamar e Fernando Henrique consolidaram a economia e Lula aproveitou-se do trabalho dos 3. Graças aos governos anteriores que projetaram o Brasil e a Lula que não atrapalhou o modelo e aproveitou o "boom" internacional, indiscutivelmente a globalização da economia foi útil para o país.
7) Em grande parte da sociedade existe um desânimo em relação a nossos políticos. O sentimento geral é de desesperança face à corrupção, nepotismo, e interesses próprios acima dos da sociedade. O Sr vê possibilidade de mudanças a curto prazo, ou seremos sempre ( como dizia Millôr Fernandes) “um país condenado à esperança”?
- Quanto maior a máquina estatal, maior a corrupção. E o aparelhamento da máquina com não concursados torna a corrupção endêmica. Os escândalos do governo Lula (mensalão e outros) tornam aqueles do governo Collor dignos de monges trapistas. Foram muito mais intensos, com valores incomensuravelmente maiores e grande parte dos beneficiários sem qualquer punição e continuando a gozar de mandatos eleitorais. Um deles inclusive com direito a falar de ética na política apesar de ter recebido milhões de reais -diz ele- para seu partido.
A forma de combate a corrupção dos amigos do rei e reduzir sua incidência é só admitir na administração pública, como manda a Constituição, servidores concursados e não os aproveitadores, que por serem "acólitos" do rei, pedem, como pagamento, parte do "butin" que é o Poder.
8) O que costuma acontecer com pessoas “poderosas” ( sejam políticos, empresários,etc.) quando perdem seus cargos?
- Quase sempre procuram ajeitar-se em outros postos e terminam sempre voltando. Raramente, o político entra para servir e terminado seu mandato volta para seu trabalho privado. Quer permanecer no "usufruto do poder" e quando deposto, tudo faz para retornar. No meu livro "Uma breve teoria do poder" (Ed. Revista dos Tribunais, 2009)mostro como é difícil quem busca o poder, abandonar sua luta para nele permanecer ou reconquistar.
9) Como o Sr consegue se dedicar com êxito a tantos interesses além do trabalho profissional: filosofia, história, poesia e música, por exemplo?
- Talvez por acordar muito cedo (5:10 e dormir entre 23:30 e 24 hs). O que vale dizer, cinco horas de sono são suficientes. Como tenho meu plano de leitura diária sobre diversos temas, mesmo que chegue tarde em casa, pelo menos 15 minutos, eu o cumpro. Como estou com 75 anos, é de se compreender que duas horas por dia acrescente muito espaço para estudar.
10) De todos eles qual é o que lhe dá maior prazer, o que o Sr realmente gosta de fazer quando deseja relaxar?
- Escrevo poesia, desde jovem. E escrevi muito para mim e para Ruth. No momento, por exemplo, estou escrevendo um diário, em agenda que recebi de bons amigos (Marluce e Eurico). Chama-se "Mar Azul" a agenda. A diferença de um diário em relação aos demais, é que cada dia conto os fatos do dia, escrevendo um soneto. Já são, neste 05/04/2010, 95 sonetos escritos em 2010.

11) O Sr escreveu e já publicou inúmeras poesias e sonetos dedicados à sua esposa, Ruth, em suas próprias palavras sua “namorada” de há mais de 50 anos. Qual a receita para manter o romantismo e o companheirismo depois de tantos anos?
- Não há propriamente receita. Ruth é uma mulher excepcional e percebi isto desde o início. Por outro lado, voltei à Senda do Senhor, graças a ela. Creio, todavia, que o nosso mútuo amor decorra daquilo que disse antes. Cada um está preocupado a fazer a felicidade do outro, com o que as brigas e desentendimentos, nestes 57 anos de namoro, foram muito poucos. A fórmula é simples: Deus e a Virgem presentes no matrimônio e cada um pensar no outro mais do que em si mesmo.
12) Que diferenças o Sr vê entre os jovens de hoje e os de sua época? O que se ganhou e se perdeu com as mudanças ocorridas?
- Toda a época tem seu estilo, sua formatação e os governos seus ideais, preferências e costumes. No momento, sente-se, mais do que no meu tempo, uma tendência ao egoismo, ao querer levar vantagem em tudo, a descrença em valores e o afastamento de Deus. Tais tendências fragilizam a juventude, facilitando a adoção de hábitos preocupantes (como de drogas, sexo livre, descompromisso social etc.). Minha experiência, como professor, tem demonstrado, entretanto, que quando são os jovens devidamente sensibilizados e descobrem valores e pessoas em que podem inspirar-se , tal percepção auxilia-os a reconquistar os ideais que tiveram antes da contaminação social. E voltam a ter os mesmos ideais e sonhos que todas as gerações tiveram. Toda a questão é conquistá-los. E se conquista mais com o exemplo do que com a palavra.
13) O Sr já foi Presidente do São Paulo Futebol Clube, sendo um apaixonado pelo Clube desce criança. Ainda gosta e costuma freqüentar estádios?
- Fui presidente do Conselho dos Cardeais do São Paulo (Conselho Consultivo). São hoje apenas 15 cardeais no Clube e com exceção de Carlos Miguel Aidar, todos com mais de 70 anos. Vou menos aos estádios, mas ainda vou. Os jogos do São Paulo, entretanto, não os perco nenhum (com o pay-per-view tudo ficou mais fácil). Sou o sócio nº 46, ou seja, sócio há 67 anos (1943).
14) Como costumam ser seus fins de semana?
- Normalmente, fico em casa ou vou para Jaguariúna, onde tenho uma pequena casa de campo. Tanto lá, como aqui, leio, ouço música, escrevo, trabalho e saio com a família para jantar ou almoçar, acompanhado sempre de amigos.
Apesar do trabalho, o fato de estar em casa ou Jaguariúna, descanso e recomeço a semana sempre disposto a enfrentá-la.
15) O Sr tem algum interesse especial por gastronomia, vinhos, cinema, teatro....?
- Gosto de vinhos e tomo uma taça toda a noite. A receita é de meu pai que um dia antes do acidente, que teve aos 101 anos, tomou à noite uma taça de vinho. Gosto de cinema, teatro, mas vou pouco, os filmes trazendo-os para casa e o teatro lendo mais do que assistindo. É que no teatro sou leitor de peças clássicas, desde as gregas até as francesas e inglesas, mas as dos séculos XVI, XVII e XVIII.
16) Algum filme que lhe marcou?
Sim nunca vou me esquecer do filme francês Tous le gars du monde que passou em 1956. É a história de pessoas que confrontadas com um problema começam a ajudar umas as outras até que ele seja solucionado, mas esta ajuda acaba envolvendo pessoas do mundo inteiro. Realmente fascinante.
17) Finalizando, quais valores são essenciais para uma vida plena e feliz?
- Querer bem ao próximo e nunca julgá-los pelo que aparentam. Ao atacar idéias alheias, preservar as pessoas que as têm. Ser leal e manter a palavra em qualquer circunstância, mesmo que lhe traga problemas. Admitir o erro, se descobrí-lo, não procurando, por amor próprio, preservá-lo para fazer uma boa imagem. Não acreditar que algum trabalho elogiado, fá-lo diferente dos outros e mais admirado. A vaidade é a sepultura dos homens, que ao pensarem que são algo, desfiguram-se e criam um cortejo de problemas desnecessários (auto-afirmação, culto ao ego, falsa postura para impressionar os demais etc.). A vida deixa de ser vivida naturalmente para si e para os outros e passa-se a viver uma vida artificial na busca de reconhecimento alheio. De rigor, por melhor que sejamos, não somos nada e, por esta razão, vaidade por que? E para que?
O principal deles, todavida, é ser intransigente com seus erros e transigente com os alheios, de tal forma que sempre os outros têm uma razão que desconhecemos e, como nos conhecemos, quando erramos não temos razão. De qualquer forma, reconhecendo o erro, corrigi-lo e seguir adiante. Começando e recomeçando.
À evidência, se se acreditar em Deus, a luta para viver tais virtudes é mais fácil, até porque sabemos que Deus mostra-nos o caminho e não nos abandona nunca, se Nele confiamos.
Passo-lhe o soneto que compus para minha esposa na passagem do ano (2009/2010):
PASSAGEM DE ANO 2009/2010.
p/Ruth
Cavaleiro me sinto como outrora,
Quando te vi donzela de meus sonhos,
Os tempos já se perdem pela história,
Nem saudosos, nem feios, nem tristonhos.
Meu amor, a distância não encerra
A mesma sensação dos anos dantes,
É muito mais imenso que esta terra
Pois tem toda a pureza dos infantes.
O corpo já se faz velho e cansado
E o tempo da passagem está bem perto.
O coração, porém, segue seu fado,
Sempre jovem no seu compasso certo.
Que eu possa até meu fim, Ruth querida,
Dizer-te que és o amor de minha vida.
31/12/2009-01/01/2010.